dezembro 05, 2011

Paradoxo Cosmopolita.

Nascemos muito perto. No tempo e no espaço. Nossas mães eram próximas, primas e vizinhas. Nossas avós ainda mais. Concunhadas, vizinhas, companheiras. Apesar de toda essa proximidade, nos encontramos mesmo alguns anos depois. Já havíamos brincado juntas, saído juntas algumas vezes na adolescência, mas este encontro a que me refiro é outro. É encontro de conhecer, de descobrir, de aproximar, de confiar, de gostar de ficar perto.

 Encontro que dura, que permite acontecer de novo, que dá a oportunidade de até esquecer o parentesco que existe e lembrar somente de laços que escolhemos. Escolhemos porque assim queremos, sem que ninguém nos peça para ser assim. Afinidade. Amizade. Amizade que permite reconhecer uma alma cosmopolita que convive com um coração completamente interiorano. Ela é assim mesmo: Paradoxal. Um paradoxo que encanta, e que permite falar, com a mesma empolgação dos meses que passou na California e em Londres e do pic-nic que fazemos na pracinha em frente a minha casa.

Um paradoxo que cobiça Louis Vuitton e Hermès assim como eu, mas que troca qualquer coisa pelo direito de andar de chinelo e sem maquiagem e poder falar o que pensa. Um paradoxo que valoriza as pequenas coisas, ir trabalhar a pé, usar camisola branca de algodão, se deliciar com uma panela enorme de carangueijos. Um paradoxo que poderia gerar quantos filhos quisesse no seu ventre, mas, depois do primeiro, está gerando um no coração, com uma certeza tão grande que leva todo mundo junto, como se estivéssemos todos ao seu lado vivendo uma gestação de amor.

Conseguir fazer com que uma alma assim, cosmopolita, conviva tão intensamente com um coração interiorano não parece ser tarefa fácil. Não para qualquer um. Mas ela tira de letra. E quando não tira assim tão fácil, busca. E quando buscar parece difícil, ela pode até falar, gritar, pedir ajuda, trocar ideias, mas vai em frente.

Adora apelidos, talvez por querer mostrar como é mais fácil viver quando descomplicamos um pouco e abreviamos os processos. Adora casa bonita, talvez para ensinar que o que temos por dentro é o mais importante.  Adora viajar, sem talvez, mas certamente porque adora o novo, sem deixar com que as suas raízes falem tão alto quanto as novas experiências.

Faz questão de muito, mas parece precisar de tão pouco para ser feliz. E eu quero sempre acompanhar esta felicidade. Bem de pertinho. Com nossas Neverfulls, Birkins, Alexas, Speedys ou com nossas havaianas e crianças no parquinho da casa da Bisa. Tanto faz. Um paradoxo mesmo. Delicioso de viver e de acompanhar. Delicioso de ter por perto. Um paradoxo tão certo e claro. De uma clareza paradoxal encantadora. Um paradoxo que hoje faz aniversário e que a quem eu desejo um mundo de cores, amores e sabores. Bem do jeito que ela gosta!

setembro 28, 2011

TOMOGRAFIA.

Uma dor de cabeça chata, que vira e mexe volta e acaba assustando. É assim comigo também. Sempre foi. Mas com você, filha, é diferente. Se a sua cabeça dói, a minha explode também. A minha, há pouco tempo fiz alguns exames e não descobri nada de especial. Mas eu podia ter todos os dias, desde que a sua não doesse. Ah, não! Dor de cabeça em você, não...

Mas, enfim, como nem sempre o que desejamos para nossos filhos se realiza, você também é vítima dela. A Pediatra resolveu pedir alguns exames. Sangue, urina, fezes, vista e uma tomografia.  É claro que eu sei que é uma precaução, um zelo, vamos ver logo tudo. Mas filho não podia ter que fazer exames. Principalmente tomografias. Você sofreu mais no exame de sangue (ainda que tenha dito que não, do alto dos seus nove anos), mas tomografia tem jeito de coisa séria. Você achou até divertido, meio futurista, eu acho. Mas, eu? Eu não gostei nada, nada. Essas coisas tinham que ser reservadas apenas para adultos já plenamente conformados com a rapidez da vida - ainda que eu não saiba se exista algum assim - mas não para filhos. Estejam eles com nove meses, nove anos ou até noventa, se ainda tivesse uma mãe. Filho não. Filho tinha que nascer saudável, assim permanecer e nunca morrer. Pelo menos enquanto ainda fosse filho.

Filho tinha que ser imune a qualquer vírus, bactéria, tinha que ter super-poderes para resistir a qualquer acidente. Filho tinha que ser de ferro. Mas é de carne e osso. Assim como as mães. E, normalmente, com as mesmas ou parecidas "falhas"genéticas e predisposições. Maldita hereditariedade. As mães, poderosas como só elas podem ser, deveriam ser capazes de criar modelos atualizados, corrigir defeitos que sentiram em si mesmas, chegar quase à perfeição. Não seria na hora da concepção que as mães mais se assemelham a Deus?

Talvez por essa semelhança é que não possamos fazer tudo o que queremos. Não podemos proteger nossos filhos de todos os vírus do universo, todos os males da vida. Afinal, é um outro ser humano que está ali. Nasceu da gente, mas tem o seu próprio caminho, suas próprias escolhas. Vamos ter que assistí-los errar, adoecer, acertar, melhorar, cair. Muitas vezes vamos poder ajudar, mas em outras vezes, sequer saberemos da enfermidade ou da dificuldade. Ou, ainda pior, os filhos não vão querer a nossa ajuda, achando que podem suportar sozinhos. É ou não é divina essa relação?

Felizmente, filha, a tomografia revelou pura normalidade. Em poucos segundos, o exame foi realizado. Nada de diferente. De estranho, apenas uma coisa. A atendente te posicionou corretamente na máquina, pediu que você ficasse bem quietinha e disse:

_ Laura, vou pedir a sua mãe para esperar ali na outra salinha comigo, para que ela não se exponha à radiação sem necessidade. Mas, não se preocupe, ela vai estar ali, te olhando por aquele  vidro, tudo bem?

E quando eu estava prestes a dizer: "Sem necessidade? É minha filha, ela é quase um bebê! Ela vai me querer ao lado dela!!! Nada disso, eu fico aqui", você foi mais rápida, filha. E disse, tranquilamente: "Tudo bem!".

E eu, mesmo depois dessa filosofia toda e de repassar mentalmente todas as possibilidades existentes em um curto espaço de tempo, só pude ficar na sala ao lado. Te olhando pelo vidro.

setembro 08, 2011

Catavento Colorido


Um Catavento é uma coisa linda. Se for colorido, então…É um daqueles objetos que me fazem parar para olhar e pensar. Um catavento raramente  está parado. Se está, é porque a natureza parou um pouquinho para pensar. Mas só um pouquinho. Quando está em movimento, as cores se modificam, se misturam, criando a cada segundo uma imagem diferente. Difícil escolher a mais bonita. Se está em movimento, alegra, colore, diverte. Mas mesmo parado, tem a sua beleza.  Pode existir para embelezar ou até ter uma função quase científica. De um jeito ou de outro, é um catavento. O mais bonito disso tudo? Ele não cata o vento para si. Cata para se movimentar, mas devolve. Não guarda nem um pouquinho. E nem conseguiria. Ele não foi feito para guardar. Foi feito para passar, mover, fluir.
São como algumas pessoas. Incapazes de guardar um pensamento, uma palavra, um sentimento, uma oração. Incapazes de guardar para si. Ao serem tocadas, precisam passar para frente. Precisam fazer com que os outros também sintam aquela beleza ou vejam aquele frescor. Assim mesmo, trocando os sentidos, porque uma pessoa catavento consegue ver o cheiro e sentir a beleza e as cores. Não consegue passar despercebida diante da sua espontaneidade.
Onde houver vento, não será possível segurar o catavento. E nem dá vontade de tentar, porque a sua beleza está no seu movimento.  Eu conheço uma pessoa catavento. Catavento colorido, lindo. Catavento que eu vi crescer, que eu vi aprontar bastante, que eu já tive até que esperar chegar acordada na sala. Catavento que eu vi mudar, que eu vi amadurecer, que eu vi formar uma família linda, Catavento que não guarda mesmo, nem um sentimentozinho para ela mesma. Catavento que já teve que ouvir “Cuidado” várias vezes por causa disso, e que pode até vir a girar um pouquinho mais devagar por conta de alguns ventos que vem na direção errada ou que mudam de direção de uma hora para outra. Mas que vai continuar sendo catavento. Que passa, que alegra, que faz o mundo mais bonito.  Catavento colorido que eu quero  continuar a ver girar, bem de pertinho. 

agosto 26, 2011

Coleção.

Quando criança, sempre quis ter uma coleção. Achava lindo quem colecionava objetos e mantinha tudo na mais perfeita ordem para satisfazer o seu próprio orgulho. Cheguei a começar algumas. Figurinhas, chaveiros,borrachas de cheiro, aquelas mini-garrafas de coca-cola que vinham em um micro engradado vermelho.

A maior de todas elas foi, sem dúvida, a minha coleção de papéis de carta. Pastas e mais pastas pretas de plástico com os papéis arrumados com o respectivo envelope e, às vezes, até com um adesivo para fechar o envelope que nunca seria usado. Trocava os papéis de carta repetidos com as amigas, vibrava quando encontrava algum modelo diferente, transparente, brilhoso e até cheiroso. Ficava horas e horas colocando os papéis na pasta e escolhendo - eu mesma, concorrente e júri - o mais bonito. 

Com o tempo, os papéis foram se perdendo, amarelando, rasgando. Nem das pastas eu tenho mais notícia. E nem poderia, considerando a crise alérgica que me causariam. Mas chego a me arrepender de não ter escrito naqueles papéis tão lindos, de não ter distribuído aquelas cartas não escritas, de ter deixado tudo perecer em função do excesso de zelo do qual eu cheguei a me orgulhar.

Continuo gostando de papéis, mesmo os coloridos, brilhantes e cheirosos, apesar de não ter mais oito anos e apesar de viver a era digital em todo o seu máximo conceito. Mas hoje não guardo. Não coleciono. Escrevo em todos. Nem que seja para mim mesma. Escrevo com o mesmo capricho que os guardava  naquela época. 

Colecionar objetos já não me fascina e me traz até uma certa fobia. Afinal, vivemos um tempo de falta de espaço e de tempo, duas das principais coisas que um colecionador precisa ter. Mas, como sempre acabamos por guardar traços da infância durante toda a vida, colecionadora eu pretendo continuar a ser. Hoje, coleciono sentimentos, sorrisos, sonhos, lembranças. Coleciono o que não precisa de espaço para ser guardado, e, o que é melhor, que pode ser pego, exposto e lembrado a qualquer hora. 

Coleciono sorrisos das minhas filhas, carinhos do meu marido, apoio da minha mãe, bençãos da minha avó, risadas das minhas amigas, momentos felizes da minha família, quilômetros corridos, barreiras quebradas, lugares conhecidos, cheiros e sabores sentidos, horas de sono, beijos e abraços. Coleciono até a saudade do que eu queria ter um pouco mais perto de mim. Coleciono vida. E só.


agosto 10, 2011

Alguns dias.


Alguns dias passam pela vida da gente sem que sejam sequer notados. Parecem que tampouco foram vividos. Quando crianças, poderíamos chamá-los de “ dias café-com-leite” ou qualquer coisa parecida. Um dia sem marca, sem cheiro, sem sabor. 

A sorte é que no meio desses dias sem predicados,  passamos por dias que se destacam no meio da multidão. Dias vividos de verdade. Dias com memórias, com cheiro, com sabor. Dias que nos fazem sorrir só de lembrar. Dias com brilho próprio. Dias que pareceram ter mais do que as vinte e quatro horas comuns aos demais. Aqueles que mereceriam páginas coloridas no diário de uma adolescente da minha época ou, ainda, registros incansáveis e cheios de entrelinhas para os facebooks  de hoje.  Minha filha mais velha diria que são dias irados, muito legais. A pequenina diria que são dias brilhantes, cor-de-rosa com glitter. Dias que dão inspiração, que compensam uma vida inteira, que dão fôlego.

Em alguns dias, parecemos fazer parte de uma grande dúvida, sem saber para onde ir ou aonde ficar. Caberia até trilha sonora do The Clash, algo como “Should I stay our should I go”.  Outros dias não conseguem ter uma trilha sonora, não chegam a esse nível de emoção,  representam apenas a incansável repetição de uma rotina também café-com-leite,  como na música Família, Titãs: “Almoça junto todo dia, nunca perde essa mania”.  

Apesar de gostar de rotina, chego a pensar que às vezes é necessário nadar contra a corrente, só pra exercitar. Todo o músculo que sente. E pedir um bis de presente, pro dia nascer feliz, como diria Cazuza – de quem eu não sou fã, em absoluto, mas sou obrigada a me render à beleza das suas alucinações poéticas.

Nando Reis – outro gênio alucinado – diz que o dia pode ser vertical. Assim eu quero os meus dias. Verticais. Buscando chegar a um lugar mais alto, tão longe como a lua corre. Mas...Se amanhã não for nada disso, caberá só a mim esquecer. O que eu ganho, o que eu perco, ninguém precisa saber. 

julho 23, 2011

Rodízio da Vida.

Novidades culinárias nem sempre me agradam. Meu paladar é, ainda, de criança. Pipoca, brigadeiro, macarrão, pizza, banana. Troco fácil, fácil um cordeiro ao molho de ervas por um queijo-quente. Mas, como tudo muda (graças a Deus), às vezes me habituo a um novo sabor. Bom, foi assim com a comida japonesa. Quando o mundo todo começou a enjoar, eu resolvi experimentar. E gostei. Gostei muito, para dizer a verdade. E, então, como acontece com toda (ou quase toda) comida que vira moda, criaram o rodízio de comida japonesa. Não me parece nem um pouco herança da cultura japonesa, mas a ideia é bastante sedutora. Está tudo à disposição, por um único preço. Basta pedir. E comer. E foi aí que a coisa me pareceu ainda mais interessante.

Ao contrário do que acontece em outras espécies de rodízio, no de comida japonesa, o que você pedir e não comer, tem que pagar. Nunca pensei em tamanha sensatez. Me lembrei de todas as vezes em que vi pratos e pratos de carne intocadas ou de pizzas das quais apenas uma mordida foi dada indo para o lixo em infindáveis rodízios. Aquele pensamento de uma cultura atrasada que leva ao terrível argumento de que "se eu paguei, é meu. Eu tenho direito, nem que seja para jogar fora."

No rodízio de comida japonesa não. Pede-se o quanto quiser, mas nenhum exagero ou desperdício. Se não comer, tem que pagar. Ou seja, o preço continua único, come-se o quanto quiser ou puder, mas nenhum pedido é feito sem que o bom-senso de cada um seja ativado. Completamente diferente. Sensato. Está à sua disposição, mas você deve pegar o quanto precisa, nem mais, nem menos.

Assim, penso eu, poderia ter agido Deus ao criar o mundo. Deveria ter deixado tudo à disposição do ser humano, mas só poderíamos usufruir daquilo que realmente fosse necessário. Se houvesse desperdício ou o uso errado do que estivesse a nossa disposição, pagaríamos o preço. Enfim, poderíamos ter tudo, mas somente o tudo que nos fosse necessário. Se pedíssemos a mais, arcaríamos com as consequencias. Ele estaria ali, pronto para ouvir os nossos pedidos e providenciá-los da melhor forma possível, mas deveríamos saber pedir, ativar o bom-senso, pensar no antes, no durante e no depois. Pediríamos com cautela, pois, apesar de todos termos pago um valor único por tudo aquilo, algumas contas seriam acertadas somente no final, quando o jantar - ou a vida - tivessem chegado ao fim.

Pensando melhor, acho que foi exatamente assim que ele agiu. E age. Está tudo aqui, aí, a nossa disposição. O preço único por tudo isso já foi pago. Podemos e devemos pedir. Talvez a nossa grande dificuldade seja exatamente descobrir o que é, de fato, necessário e o que será desperdiçado.

Se Deus é sensato - e é no que eu acredito - age exatamente como no rodízio de comida japonesa. A intenção não é punir, é simplesmente equilibrar, permitir que as coisas aconteçam da melhor forma possível, sem sacrifícios, sem exageros, sem desperdícios.

Saber o que pedir, quando pedir e quanto pedir. Talvez seja esse o segredo. Ele não hesitará em conceder, mas, a conta, no final, será de nossa responsabilidade...