agosto 10, 2011

Alguns dias.


Alguns dias passam pela vida da gente sem que sejam sequer notados. Parecem que tampouco foram vividos. Quando crianças, poderíamos chamá-los de “ dias café-com-leite” ou qualquer coisa parecida. Um dia sem marca, sem cheiro, sem sabor. 

A sorte é que no meio desses dias sem predicados,  passamos por dias que se destacam no meio da multidão. Dias vividos de verdade. Dias com memórias, com cheiro, com sabor. Dias que nos fazem sorrir só de lembrar. Dias com brilho próprio. Dias que pareceram ter mais do que as vinte e quatro horas comuns aos demais. Aqueles que mereceriam páginas coloridas no diário de uma adolescente da minha época ou, ainda, registros incansáveis e cheios de entrelinhas para os facebooks  de hoje.  Minha filha mais velha diria que são dias irados, muito legais. A pequenina diria que são dias brilhantes, cor-de-rosa com glitter. Dias que dão inspiração, que compensam uma vida inteira, que dão fôlego.

Em alguns dias, parecemos fazer parte de uma grande dúvida, sem saber para onde ir ou aonde ficar. Caberia até trilha sonora do The Clash, algo como “Should I stay our should I go”.  Outros dias não conseguem ter uma trilha sonora, não chegam a esse nível de emoção,  representam apenas a incansável repetição de uma rotina também café-com-leite,  como na música Família, Titãs: “Almoça junto todo dia, nunca perde essa mania”.  

Apesar de gostar de rotina, chego a pensar que às vezes é necessário nadar contra a corrente, só pra exercitar. Todo o músculo que sente. E pedir um bis de presente, pro dia nascer feliz, como diria Cazuza – de quem eu não sou fã, em absoluto, mas sou obrigada a me render à beleza das suas alucinações poéticas.

Nando Reis – outro gênio alucinado – diz que o dia pode ser vertical. Assim eu quero os meus dias. Verticais. Buscando chegar a um lugar mais alto, tão longe como a lua corre. Mas...Se amanhã não for nada disso, caberá só a mim esquecer. O que eu ganho, o que eu perco, ninguém precisa saber. 

julho 23, 2011

Rodízio da Vida.

Novidades culinárias nem sempre me agradam. Meu paladar é, ainda, de criança. Pipoca, brigadeiro, macarrão, pizza, banana. Troco fácil, fácil um cordeiro ao molho de ervas por um queijo-quente. Mas, como tudo muda (graças a Deus), às vezes me habituo a um novo sabor. Bom, foi assim com a comida japonesa. Quando o mundo todo começou a enjoar, eu resolvi experimentar. E gostei. Gostei muito, para dizer a verdade. E, então, como acontece com toda (ou quase toda) comida que vira moda, criaram o rodízio de comida japonesa. Não me parece nem um pouco herança da cultura japonesa, mas a ideia é bastante sedutora. Está tudo à disposição, por um único preço. Basta pedir. E comer. E foi aí que a coisa me pareceu ainda mais interessante.

Ao contrário do que acontece em outras espécies de rodízio, no de comida japonesa, o que você pedir e não comer, tem que pagar. Nunca pensei em tamanha sensatez. Me lembrei de todas as vezes em que vi pratos e pratos de carne intocadas ou de pizzas das quais apenas uma mordida foi dada indo para o lixo em infindáveis rodízios. Aquele pensamento de uma cultura atrasada que leva ao terrível argumento de que "se eu paguei, é meu. Eu tenho direito, nem que seja para jogar fora."

No rodízio de comida japonesa não. Pede-se o quanto quiser, mas nenhum exagero ou desperdício. Se não comer, tem que pagar. Ou seja, o preço continua único, come-se o quanto quiser ou puder, mas nenhum pedido é feito sem que o bom-senso de cada um seja ativado. Completamente diferente. Sensato. Está à sua disposição, mas você deve pegar o quanto precisa, nem mais, nem menos.

Assim, penso eu, poderia ter agido Deus ao criar o mundo. Deveria ter deixado tudo à disposição do ser humano, mas só poderíamos usufruir daquilo que realmente fosse necessário. Se houvesse desperdício ou o uso errado do que estivesse a nossa disposição, pagaríamos o preço. Enfim, poderíamos ter tudo, mas somente o tudo que nos fosse necessário. Se pedíssemos a mais, arcaríamos com as consequencias. Ele estaria ali, pronto para ouvir os nossos pedidos e providenciá-los da melhor forma possível, mas deveríamos saber pedir, ativar o bom-senso, pensar no antes, no durante e no depois. Pediríamos com cautela, pois, apesar de todos termos pago um valor único por tudo aquilo, algumas contas seriam acertadas somente no final, quando o jantar - ou a vida - tivessem chegado ao fim.

Pensando melhor, acho que foi exatamente assim que ele agiu. E age. Está tudo aqui, aí, a nossa disposição. O preço único por tudo isso já foi pago. Podemos e devemos pedir. Talvez a nossa grande dificuldade seja exatamente descobrir o que é, de fato, necessário e o que será desperdiçado.

Se Deus é sensato - e é no que eu acredito - age exatamente como no rodízio de comida japonesa. A intenção não é punir, é simplesmente equilibrar, permitir que as coisas aconteçam da melhor forma possível, sem sacrifícios, sem exageros, sem desperdícios.

Saber o que pedir, quando pedir e quanto pedir. Talvez seja esse o segredo. Ele não hesitará em conceder, mas, a conta, no final, será de nossa responsabilidade...

julho 13, 2011

Desconfiança.

Interessante o ser humano. E sórdido, muitas vezes. Falamos de forma tão natural sobre o perdão mas não sabemos como agir quando precisamos perdoar. É claro, estou falando dos erros dos outros porque os nossos erros são extremamente "perdoáveis", afinal, nunca fazemos por mal. Nunca erramos para machucar alguém ou para espalhar o mal, semear a discórdia, criar conflitos. Nós não. Os outros sim. Os erros dos outros são sempre piores. Claro, os outros não são tão bem intencionados como nós, assim, como que por óbvio, é tão mais fácil perdoar-nos. Se estivéssemos na pele dos outros, nos perdoaríamos facilmente. Afinal, nunca são graves assim os nossos erros.

Os erros dos outros, ao contrário, merecem uma (des)atenção maior. Será que é verdadeiramente possível perdoar os outros por completo? Eu achava que sim. Passei a desconfiar. Aliás, hoje, tenho quase certeza de que o perdão só existe para os nossos erros. Falo de perdão sincero, pleno. Porque o perdão superficial, aquele que aparece mas guarda com ele os erros cometidos, acho até que é fácil conceder. Esse perdão fácil  permite a convivência, mas impossibilita a entrega. Perdoando assim, estamos sempre desconfiando, vigiando, acusando, perseguindo, humilhando, massacrando, machucando. Só assim nos sentimos resguardados de verdade para convivermos com quem errou. Afinal, não podemos permitir que o erro aconteça de novo. E de novo, e de novo. Nos preocupamos tanto com a possibilidade do erro voltar a acontecer (e com razão, afinal, foi um erro) que esquecemos de viver. O perdão fácil mata o amor, mata a amizade, aniquila a alegria da convivência, sufoca os sentimentos mais bonitos. Mata porque domina. Mata porque segura. Mata porque desconfia. Mata.

O erro também mata, certamente. Mata a confiança, mata a cumplicidade. Mata o amor? Não sei. Mas começo a desconfiar que sim. Uma leve desconfiança, até porque não conheço alguém que errou apenas poucas vezes na vida. Se vivemos, erramos. Se vivemos, convivemos com erros. Os nossos e os dos outros. Assim, se o erro matasse o amor, não amaríamos mais. Sequer seríamos amados.

Como não queremos deixar de amar e nem de sermos amados, não podemos permitir, então, que o erro mate o amor? Talvez a solução seja uma vida sem erros. Uma solução digna, perfeita. Mas matematicamente impossível. Conclusão exata, a única sem margem de erro. Não errar é impossível. Se conviver com o erro não é uma opção, permaneço com a dúvida: Perdoamos e amamos ou vivemos e matamos o amor?

Quando o erro é nosso, a escolha parece certa: Perdoamos e amamos. Quando o erro é dos outros, tendemos a matar o amor. Matar o amor é mais fácil e menos dolorido. Afinal, podem existir outros amores para substituir aquele que foi assassinado. Perdoar é, de longe, o mais difícil. Mais nobre, talvez, mas infinitamente mais difícil. Até porque AMAR é difícil. Tão difícil que acaba me levando, também, à desconfiança do próprio amor. Sim, porque se o perdão fácil e superficial mata o amor, então o amor não supera tudo. Supera tudo menos o erro? Então não podemos dizer que supera, porque não existe vida sem erro. Mas existe vida sem amor?

Bom, se existe, não é a que desejo. Não é a que eu posso viver. Não é a que eu escolhi viver. Eu escolhi viver com amor, por amor. Não foi a escolha mais fácil, mas foi a minha. A escolha na qual eu acredito. Sem desconfiança.

junho 28, 2011

Escrever um livro, ter um filho, plantar uma árvore - Parte II


Ter um filho. Decisão muito mais complexa. Não basta dedicar algum tempo para plantar, regar e podar. É preciso dedicar a vida e transformar todas as nossas vontades em outras. É preciso deixar uma vida inteira de lado, ainda que por um tempo, para dedicar-se à vida de outra pessoa. Poesia pura, realidade muito diferente.

As decisões são muito mais profundas e impactantes. Estou preparada para sentir todo o desconforto da gravidez e seus sintomas em função de um outro alguém? Sim, porque toda a literatura obrigatória para se ler na gravidez e ao dar à luz somente fala naquele momento mágico de olhar pela primeira vez o rostinho daquela criança e transforma o enjôo matinal e as dores nas costas em provas da fortaleza de uma mulher: Veja como você é forte! Veja o que você consegue fazer! Perceba como é incomparável! Agüente firme!

Ter um filho é a coisa mais contraditória pela qual eu já passei. No momento em que minha primeira filha nasceu, o meu primeiro pensamento foi: Aonde estão as minhas asas? Cadê meus super-poderes? Quando eu começo a ouvir pensamentos e prever acontecimentos? Já consigo fazer um jantar? E um bolo de aniversário? Quantas pessoas vão ficar ao meu lado o tempo todo para que eu possa dar conta de tudo? Aonde é o botão de desligar?Posso desistir disso?

Não vou mentir. Não ouvi sinos tocando, borboletas voando, não senti o coração dela batendo no mesmo compasso que o meu. Me senti muito culpada por não ver nascer em mim aquela mãe idealizada de um minuto para o outro. Sofri muito para amamentar. O maior milagre da natureza para mim não foi amamentar as minhas filhas, mas sim descobrir como elas dormiam bem depois de tomar leite em pó. Nunca acordei feliz da vida às duas da manhã, tendo dormido à uma. E, sinceramente, tenho grandes dúvidas quando ouço uma mãe dizer que antes do filho sentir fome ela já está de prontidão, feliz da vida. Talvez o problema seja comigo, é bem provável.

E algum tempo depois, quando as coisas começam a chegar no lugar novamente, quando as noites já podem ser dormidas, quanto o contato com o mundo exterior retorna, quando a fase das visitas solícitas acaba, você descobre que o pior não passou. Espere a primeira virose. O primeiro tombo. A primeira pirraça sem qualquer motivo. E a segunda. E a terceira. E a quarta. Espere as pessoas te dizendo o que você deve fazer e o que você não deve fazer. Cada um tem um conselho diferente e, muitas vezes, estranho. Vire a criança de ponta a cabeça no berço quando ela não quiser dormir a noite. Coloque uma linha molhada na testa para ela parar de soluçar. Passe azeite na assadura. Agasalhe a criança. Esse choro não é por causa de calor?

E você, sem que ninguém te avisasse com antecedência, se torna outra pessoa. Uma pessoa que não pode comer qualquer coisa, para não dar cólicas no bebê. Uma pessoa que não deve falar alto, que não pode falar besteira. Alguém que tem que assistir o Jornal Nacional em silêncio, que deve gostar de musica clássica, odiar feriado, falar mal dos políticos, achar os programas de TV absurdamente fúteis e maléficos para a sociedade, que não pode estar em casa antes do sol se por nos dias úteis. Alguém que precisa exigir que a casa esteja em ordem, que a alimentação seja saudável. Alguém que começa a se preocupar com que tipo de sol a casa pega. Sol da tarde? Sol da manhã? Acredite, quando isso começar a ser importante para a compra da sua casa, você virou esse alguém. Você virou o alguém que manda tomar banho, escovar os dentes, que pergunta o sobrenome dos amigos, que reclama das roupas, da música, do quarto desarrumado, da toalha em cima da cama. Você cresceu. Cresceu como aquela árvore.  Aquela mesmo, aquela que você plantou para se tornar completo. E o curioso disso tudo é que, quando nos tornamos esta árvore crescida, somos responsáveis únicos pelo crescimento da outra arvorezinha que já nasceu chorando...



O choro é um capítulo a parte. Filhos choram por sede, fome, frio, calor, dor, tédio, cansaço. Choram porque estamos longe. Choram porque estamos muito perto. Choram. Simples assim. Não duvide, o bebê vai chorar. E essa estória de conhecer o choro? Choro de fome, choro de cólica, choro de pirraça  e mais algumas 2.500 variações.  Tudo bem, nós, mães temos a inegável e invariável necessidade de dizer (e mostrar) que conhecemos nossa cria melhor do que ninguém, que o choro somente vai parar quando nós agirmos. A verdade? Do mesmo jeito que o choro começou, ele vai embora. Esteja o bebê com a mãe, com o pai, com a babá ou com a diarista que sequer o conhece. A receita que eu aprendi com as minhas duas filhas é a de ter paciência com o choro. Se a criança não está doente, já se alimentou e está em uma temperatura normal, a única coisa que podemos fazer é esperar. Cantando, embalando, de qualquer forma o choro vai parar.

E é exatamente nessa hora que reconhecemos o valor – ou o tamanho – da paciência que já exigimos de alguém quando éramos nós os protagonistas do choro. Os filhos vão crescendo e a gente vai aprendendo...

Todo mundo diz por aí que ter filhos é a melhor coisa do mundo. Eu sinto, é verdade, um amor incondicional recíproco. Acho que esse é o melhor sentimento do mundo. Indescritível. Indescritível porque ambíguo, contraditório, egoísta, sobrenatural. Chega a ser esquisito. Levante a primeira pedra a mãe que nunca sentiu uma pontada de arrependimento em um domingo a tarde, após um almoço daqueles, quando pensava em se dirigir diretamente para o paraíso cama-travesseiro-edredom-ar condicionado-Tv a cabo, mas foi parada por um incessante pedido: _”Vamos brincar?”. Ou quando planejou uma viagem maravilhosa, e, ao entrar no carro, após a primeira curva, se vê completamente suja em razão do enjôo que acometeu o pequeno?

Os exemplos seriam muitos. Mas nada se compara à realidade que aguarda uma mãe. Encontrar uma babá, atender um milhão de telefonemas durante um dia de trabalho estressante, comprar sapatinhos lindos que serão utilizados uma única vez e que custam o mesmo que aquela peep toe preta que você anda namorando, ouvir a palavra Mãe cinco vezes por minuto, sem qualquer motivo, ser acordada em uma terça-feira de uma semana ocupadíssima no meio da noite para levar o pequeno ao banheiro e, claro, não conseguir dormir mais depois, assistir ao mesmo filme três vezes por noite (no mínimo) e depois não conseguir tirar aquela musiquinha da cabeça por semanas, chegar em casa e encontrar aquele seu estojo edição limitada de maquiagem da Dior em pedaços e, naturalmente, também em cima do edredom branco da sua cama, constatar que o sofá pago em várias vezes está mais sujo do que o tapetinho da entrada, encontrar a parede recém-pintada cheia de rabiscos coloridos e escritas espelhadas, viajar depois de todo mundo por causa de uma apresentação na escola marcada justamente para aquele dia e tantas outras experiências por quais somente as mães e os pais passam.

Esse brinquedo não vem com manual. Ás vezes tenho a nítida impressão de que ter filhos é uma loucura. Eu, por exemplo, enlouqueci duas vezes. Na segunda vez, cheguei a pensar, já na mesa de cirurgia: “Não acredito que fiz isso de novo”. Mas devo confessar que foi bem mais fácil. Eu já sabia que o céu não se abriria para me trazer a luz divina, a sabedoria plena. Eu já sabia o que me aguardava. E mesmo assim, ali eu estava de novo. E novamente, sem manual. Ser mãe poderia exigir curso superior específico, aprovação em exame de proficiência, mestrado e doutorado. Tudo com uma grade curricular ampla. Noções básicas de fisiologia da Grávida (indispensável a presença dos pais nesta disciplina). Teoria da Paciência I. Primeiros Socorros. Introdução à nutrição saudável. Recreação Básica. Recreação Avançada. Teoria da Paciência II. Estudos Avançados de Psicologia. Técnicas Avançadas para Contratação de Auxiliares. Teoria da Paciência III. Teoria Geral do Ouvir e Não Falar. Crianças em espécie. Classificação de Pirraças. Teoria da Paciência IV. Técnicas de Jejum e Autocontrole. Diálogos I. Teoria da Separação. Teoria da Paciência IV. Diálogos II. Tudo isso, é claro, sem levar em consideração a leitura complementar obrigatória.

Sem ilusões, tudo muda. Nosso corpo, nossos horários, nossos prazeres, nosso orçamento, nossos relacionamentos, os lugares que frenquentamos. Sim, porque tenho absoluta certeza que pais trocam qualquer prato preferido por um restaurante que tenha parquinho ou recreadores. Aliás, arrisco dizer que alguns restaurantes e hotéis aumentariam seu faturamento em setenta por cento se pensassem um pouco na necessidade que as mães tem de almoçar com calma de vez em quando.

Então, porque a decisão de ter um filho? Porque somos mais felizes assim? Porque queremos viver “para sempre”? Pela necessidade de sermos incondicionalmente amados? Pelas convenções sociais? Para não ser diferente? Para ter uma razão de viver? Talvez por tudo isso junto, talvez por nenhuma dessas razões.

Questionamentos filosóficos à parte, o fato é que as mulheres precisam ser avisadas do que é ter um filho. Muitas vezes tenho a nítida impressão de que foi feito um pacto secreto – do qual eu não fiz parte – uma espécie de Concílio do Vaticano das mães, nos quais elas definiram determinados critérios e juraram passá-los para frente a qualquer custo. E cumpriram. Como uma sociedade secreta digna de um Best seller do Dan Brown. Após muitas deliberações as mães decidiram que falariam para sempre que ser mãe é a melhor coisa do mundo, que nada se compara ao sorriso de um filho, que todas as mães são felizes, que todas já estão no paraíso. Padecendo, mas estão. 

Com ou sem essa sociedade secreta, ser mãe é muito mais do que a melhor coisa do mundo. É muito mais do que padecer no paraíso. É muito mais do que qualquer desses clichês. Ser mãe é ser de novo, nascer de novo, criar (ou pelo menos tentar) um EU melhorado. Um EU que não é mais sozinho. Um EU que é capaz de qualquer coisa por outro EU. Um EU divino. Imperfeito, mas divino.

junho 16, 2011

Igualdade desigual.

É coisa de mulher mesmo. Com o perdão das feministas de plantão, a igualdade entre os sexos não pode ser exigida. Não pode ser exigida porque não existe. Simples assim. Respeito plenamente  quem possui outra opinião, mas homens e mulheres são, definitivamente, muito, mas muito diferentes. Nas aulas da faculdade, uma das primeiras coisas que aprendi no Curso de Direito foi o Princípio da Igualdade, ou seja, todos são iguais perante a Lei e não pode haver distinção de qualquer natureza. Claro, depois de aprendermos a regra, vem a exceção: Para que exista, realmente, a igualdade, precisamos tratar os iguais com igualdade e os desiguais com desigualdade. Princípio que qualquer aluno do primeiro período do Curso de Direito conhece. Diante disso, mulheres e homens não podem ser tratados da mesma forma. Não mesmo.

Ao pararmos em um posto de gasolina para abastecer o carro hoje pela manhã, meu marido, depois de fazer aquele cálculo que todo homem conhece, me mostrou, cheio de orgulho, um número na calculadora do celular: 8,677859, ao algo parecido. Eu, do alto da minha desigualdade e, não querendo estragar o seu momento que parecia tão glorioso, apenas sorri. Ele continuou dizendo que a média do carro foi muito boa e que, em um outra viagem que fez a média havia sido um outro número enorme desses. E ficou alguns bons minutos falando sobre o que influencia o gasto de combustível, etc, etc, etc. Eu ouvia tudo, mas, ao mesmo tempo, pensava sobre essas diferenças que as pessoas teimam em tentar descaracterizar. Eu dirijo, o combustível acaba, eu abasteço. Acho um absurdo o preço do combustível, reclamo, mas abasteço e continuo. Ele não. Faz todos os cálculos, divide uma coisa pela outra, compara com o último abastecimento, também acha um absurdo o preço do combustível, reclama, mas também abastece e também continua.

E eu, por meu turno, quero a atenção dele para me dizer se aquela cor de base está muito clara, qual sapato fica melhor com aquele vestido, se as luzes no meu cabelo ficaram boas. Vejo claramente que ele pensa: Que luzes? Não vejo nenhuma diferença. Mas ele diz que sim, ficaram boas.

Eu não entendo porque ele precisa comprar todas as ferramentas necessárias (e outras nem tão necessárias assim) para fazer o jardim e lavar o carro, se, normalmente, paga alguém para fazer as duas coisas. Ele não entende porque eu preciso de uma bolsa estruturada de tamanho médio para este inverno. Eu não entendo como ele pode perder horas a fio em frente à televisão assistindo perseguições de carro, ou os acidentes mais trágicos do mundo. Ele não entende para que eu quero um sapato rosa pink e outro rosa claro, para que tanta maquiagem, para que tanto creme. Eu não entendo a preguiça que ele tem de se barbear, ele não entende porque eu tenho preguiça de viajar   (na verdade, de arrumar malas).

Como ele consegue ficar horas conversando sobre os cilindros do carro, turbo, bi-turbo, qual velocidade que o carro alcança em qual tempo? Na minha opinião, se temos um limite de velocidade para ser respeitado no trânsito e na estrada, para que ter um carro que corra mais do que isso?

Como eu consigo ficar horas conversando sobre esmaltes, tons de blush, decoração e um hidratante que mantém a pele hidratada por até 24 horas? Na opinião dele, se eu vou tomar um banho em, no máximo, oito horas e passar novamente um hidratante, para que um que hidrate por 24?

Ele não entende como eu posso gostar tanto (e precisar) de um chocolate. Eu não entendo como ele pode gostar tanto (e precisar) de um vinho. Eu não concordo que ele compre uma moto. Ele não concorda que eu compre outra bolsa. Sim, porque a essa altura, já não quero mais a estruturada marrom de alguns parágrafos atrás. Coisa de mulher. Não acredito que exista alguma mulher no mundo que não goste de ser cuidada, que não goste de receber flores, que não goste de roupa nova, perfume diferente.

Somos iguais? Perante a Lei, sim. Perante o coração um do outro somos completamente diferentes. Entender a diferença é tarefa para poucos, exige desapego, concessão, ou, às vezes, pelo menos um sorriso de cumplicidade, que independe de qualquer nível de compreensão e entendimento.

junho 08, 2011

Escrever um livro, ter um filho, plantar uma árvore.

1.     Já li e ouvi muitas vezes que o ser humano se encontra completo, pronto, acabado quando escreve um livro, tem um filho e planta uma árvore. Não sei quem enumerou estas prioridades, tampouco se elas tem realmente o poder de completar alguém. O fato é que vale a pena avaliá-las. Por que? Talvez pelo mesmo motivo pelo qual se deve acreditar nelas. Nenhum, em especial. Mas às vezes a vida ensina que não é nas coisas especiais que encontramos o maior de nossos desejos, a felicidade plena.

Plantar uma árvore. Talvez o mais simples, talvez o mais significativo. Antes de mais nada precisamos decidir que tipo de árvore plantar, saber se aquela planta sobreviverá às condições climáticas, geográficas e humanas do local escolhido. Saber se aquela árvore poderá oferecer sombra, frutos ou pelo menos uma beleza  a mais naquela paisagem. É preciso também avaliar a melhor época do ano para plantá-la, pois as sementes também tem o seu tempo. Precisamos também avaliar quem serão o seus vizinhos de solo, se aquele meio é propício para o crescimento daquela planta.

Depois de plantada, para que a árvore venha a florescer, é preciso acompanhar. Regar, adubar, proteger. É preciso podar também, mesmo que isso doa no coração de quem plantou. É para o bem da árvore, afinal.

E, mesmo tomando todos estes cuidados, a árvore pode ou não florescer. Talvez porque a semente não era perfeita ou porque negligenciamos algum cuidado importante, ou, ainda, porque uma outra pessoa decidiu que ela não deveria estar ali. Quem sabe a árvore não precisou ser cortada para a passagem de uma estrada? Ou pegou fogo quando atingida por um carro? Por um outro lado, árvores enormes e lindas crescem sem qualquer cuidado, sequer se tem notícia de quem as plantou ou se alguma vez já foram adubadas. É a natureza fazendo a sua parte.

Plantando uma árvore, deixamos, ainda que involuntariamente, uma marca na natureza. Mudamos a paisagem do mundo. Fazemos sombra, mostramos beleza e até alimentamos alguém. Talvez por isso plantar uma árvore seja uma destas três atitudes humanas que não podem ser esquecidas. É a forma da natureza mostrar para o homem os seus caprichos, a sua bondade, a forma de ensinar a ser paciente, a respeitar um ritmo que não seja o nosso, a cuidar e não apenas ser cuidado. E, talvez, apenas talvez, seja a forma da natureza dizer que apesar de todo e qualquer esforço, outras vontades precisam ser respeitadas.

Se eu já plantei uma árvore? Não que eu me lembre. Mas se for para aprender tudo isso, devo conseguir a semente amanhã mesmo.