março 08, 2009

Caligrafia

Em tempos de linguagem virtual, reformas gramaticais, internetês, e outras coisas mais, a antiga caligrafia continua existindo nas escolas do Brasil. Os temidos cadernos de caligrafia continuam lá, famintos, esperando pelo grandioso número e repetitivo conteúdo que os completará até oi final do ano.

Não digo que acho arcaico, tampouco desnecessário. Precisamos reaprender a escrever e a tomar gosto por isso, não tenho dúvida. Apesar da distância que cresce a cada dia entre pessoas e canetas, ainda acho que essa habilidade precisa ser estimulada. Ainda que depois a linda letra redonda e desenhada seja substituída por frenéticos toques no teclado do computador ou do blackberry. Todos iguais.

Mas a caligrafia da primeira série (hoje segundo ano do ensino fundamental, porque as coisas precisam mudar...)me fez pensar um pouco nisso. Enquanto Laura desenhava o J, o G, o Z, tentando observar todos os limites impostos pelo caderno de caligrafia, eu pensava em quão desnecessário isso tudo pode ser. Tempo perdido? Esforço desnecessário? Afinal, daqui a alguns anos, ela precisará de papel? De caneta? De letra bonita? Alguém, em algum lugar do mundo, usa todo aquele espaço para uma letra G? E para um P?

O caderno veio para casa para que ela corrigisse as letras que não observaram meticulosamente o limite da linha. Nada a mais. Nada a menos. E eu insisti para que ela refizesse tudo, com o maior cuidado. Não porque queira a sua letra redonda ou perfeita como o modelo no início da linha. Mas porque pensei, na hora, que todo esse esforço pudesse ser uma forma de mostrá-la um limite, dizê-la, pelo menos por hora: "Filha, e só até aqui que você pode ir, se ultrapassar essa margem, não fica certo...". Talvez a vontade fosse que a vida dela fosse como aquele caderno. Cheio de linhas objetivamente colocadas, que mostrassem o que é certo e o que é errado. E eu podendo acompanhar cada traço. E usar a borracha. E acompanhá-la refazendo.

A vida delas não é um caderno, eu não posso colocar as linhas divisórias e acompanhar cada erro. Mas, então, penso que, quando a criança deixa de usar o caderno de caligrafia, ela continua escrevendo, por si. Ela continua lembrando que algo precisa ir mais para cima ou mais para baixo. Ela percebe quando fica ilegível e quando tem que refazer para se fazer entender. Assim como na vida. Agora, ensinamos. Mais tarde, acompanhamos erros e acertos, sempre torcendo. Caligrafia e Pais. Ninguém escreve ou vive naquele limite para sempre. Ainda bem que existe, no caderno ou na vida, uma margem de segurança.

14 comentários:

Eneida disse...

Excelente texto!
Também penso assim.
Os limites impostos são como os princípios que oferecemos e os preceitos que devemos seguir. Reconhecer que há limites é importantíssimo para a vida.
Uma vida regrada não é de todo ruim, e faz-se necessário ao convívio em sociedade.
Adorei o paradigma!
Beijo!

Thais Martinez disse...

Nossa, adorei o conteúdo. Principios, margens, sonhos, erros e acertos...

a vida nos ensina, basta sairmos da zona de conforto....

beijos

Claudia Pimenta disse...

querida renata, um gde bj em vc, uma mulher querida e mt especial!!!

Chris disse...

Muito legal seu paralelo da caligrafia com a vida, talvez esse seja o unico objetivo de bom senso de um caderno de caligrafia. Na faculdade tbm estudei um pouco sobre o caderno de caligrafia e ele e um tempo disperdicado para aqueles que tem dificiculdade de aprendizagem, pois o que importante e a crianca ler os codigos graficos, seja ele letra de forma ou manual. E no processo de alfabetizacao, dar valor a copia e a forma e perda de tempo! Por isso seu texto me fez gostar um pouco do caderno de caligrafia, so no sentido do limite. Mas de resto o que importa e que a crianca esteja realmente lendo e entendendo....e escrevendo, e claro, torto ou nao...com o tempo o trcado se ajeita!
=]

bjks

Nina disse...

Ainda bem mesmo Rê! Ja'pensou um mundo sem essas margens?? se hj existem tantas margens e linhas divisórias, e o mundo está como está, imagina sem as linhas???

caderno de caligrafia, aaahh eu acho o maximo, serio mesmo! Aqui meu filho teve que usar novamente, apesar de ter 11 anos (ano passado qd chegou por essas bandas) porque a letra deles aqui, é diferente da nossa. Me incomodou essa retidao alema de ter tudo mais ou menos igual, mas veio super pro bem aquele caderninho, sabe? a letra dele melhorou 100%!

Que bom te ter de volta, eu tava com MUITA saudade :)

Lúcia disse...

Oi, Renata! Que texto interessante! Com as linhas, na vida ou nos cadernos, fica mais fácil seguirmos! Bjins

SGi/Sonia disse...

Quando o Caio começou a fazer caligrafia, resolvi comprar um caderninho para mim também, para acompanhá-lo nessa tarefa dificil que era respeitar os limites, e para ele era dificil de fato, ele tem a letrinha bonitinha, mas não gostava de fazer caligrafia, mas comigo do lado ele fazia sem reclamar, copiava alguns traços meus, eu acho que as crianças tem que escrever muito, tem que ler muito...

Beijins:*

_+*A Elite in Paris*+_ disse...

Boa pergunta : gostaria de saber o que vai ser pedido das crianças na sua educação dentro de alguns anos, sobretudo que tens razao (e ri-me) com o "internetês", as coisas ficaram muito virtuais...!

Beijo meu ♥,

A Elite

SamiAguiar disse...

Texto magnífico! Irretocável!

Quanto à música, como é bom se embalar com o que se gosta, né? Um sambinha de quando em quando não cai mal!

Bjo e bom dia pra ti!

Bel disse...

... tes razão, Renata. As linhas são limites... sempre serão. Até numa página em branco há limites.

Um beijo,
Bel.

Nina disse...

Oi minha passarinha e borboleta :) tu perguntou se chegou algo aqui... hmm, snif snif, ainda nao, mas chega, chega sim.. aaaaahhh nao me diz que é o vestido de Laura???? ooooooohhh eu tenho treco assim :)

vou aguardar ansiosamente!

Fiona de Bourbon disse...


adorei as coincidências nas coisas que escrevi no último post hahaha. Se tiveres algum caderno 'virtual' de exercicios de direito administrativo, eu queeeeeero. Manda pro meu e-mail :)

Sobre caligrafia, fiz muitas, graças a bons professores que tive. Não so fazia exercicio de caligrafia todos os dias, como um dia sim outro não tinhamos que fazer a cópia de um texto do livro de Português. Amava quando era um do Monteiro Lobato! Às vezes era de fazer calo nos dedos, de tão grande. Foi assim o primário todo. Hoje agradeço de verdade, tenho uma letra bem legal, a famosa 'letra de professora', meio desenhada, tudo no tamanho certo. Na alfabetização das minhas crianças, mesmo o colegio já tendo extinto a caligrafia, comprei e coloquei-os pra fazer como exercicio extra. A letra não ficou um primor, pq não impus isso, deixei mais livre a criterio da vontade deles, mas ajudou. Acho que se eles não tivessem feito, escreveriam hieróglifos. Pena não existir mais. Fora meu adolescente que escreve um internetês que me revira os olhos de pavor. E já estou aqui nervosa, com medo do hábito fazer o monge e ele ter problemas na fase do vestibular.

Enfim! Tempo bom foi o nosso. Eu acho!

lecarioca disse...

olá
vim fazer um visita, seu blogg é muito interessante
textos legais e imagens de bons gosto, parabéns
virei mais vezes
ótimo dia pra vc
bjussssss

Rosi disse...

Concordo em gênero, número e palavras!
Meus cadernos de caligrafia contribuirem muito para minha letra, minha personalidade e minha responsabilidade.
Meus pais e a escola (pública, acredita?) foram responsáveis por todas as minhas margens.
Gostei daqui, venho mais vezes. Prometo.